Testemunhos

Testemunho_Xose

A minha relação com a Sardinha em Lata começa por dois motivos: o primeiro prende-se com o meu interesse pessoal, como galego, em trabalhar com um país vizinho e irmão como Portugal e, o segundo, a qualidade e personalidade que a animação portuguesa tem mostrado nos últimos vinte anos.

Um problema de base na colaboração entre empresas portuguesas e espanholas no mundo da animação começa na diferença de tradição e objectivos de cada uma das indústrias. Espanha desenvolve produções de grande orçamento utilizando a última tecnologia, Portugal tem uma tradição mais artesanal, de pequenas produções, utilizando técnicas tradicionais como o desenho dos bonecos.
À IB Cinema e a mim, como produtor, sempre nos interessou mais a animação tradicional como meio para encontrar novos desenhos e novas imagens dentro da tecnologia do nosso tempo. Nesta encruzilhada entre tradição e inovação deparámo-nos com a Sardinha.
Creio que para pequenas cinematografias como a portuguesa e a galega, o caminho no mundo audiovisual, tão enérgico na utilização de grandes capitais, se encontra no talento pessoal e a Sardinha em Lata sobressai pelo grande talento dos seus impulsores: Nuno Beato e Zé Miguel Ribeiro.
Tanto o Nuno como o Zé Miguel são animadores que tentam adaptar-se às grandes dificuldades de produção que este mundo encerra. O seu talento desenvolve uma arte e criatividade marcantes que tenta adaptar-se às difíceis condições de produção que Portugal e Espanha têm quando comparamos com outros países: França e Alemanha.
No livro branco da animação que a Diboos preparou (Associação de Produtores de Cinema de Animação de Espanha) os dados de investimento na animação (televisão na sua grande maioria) na Europa durante o ano de 2010 são bastante contundentes: em França investem-se anualmente 43 milhões de euros, no Reino Unido, aproximadamente, 26 milhões, em Itália 18 milhões de euros anuais, em Espanha 5 milhões (3 dos quais correspondem à Televisão da Catalunha) e em Portugal….os dados seriam insignificantes. Portanto, Espanha e Portugal estão na cauda, no investimento na animação com uma grande distância dos outros países.

Como carecemos de dinheiro, resta a Portugal e Espanha o talento e é nisso que se baseou o projecto Sardinha em Lata. Eu, como produtor dos filmes O Sapateiro, Desassossego e Mi Vida En Tus Manos, tenho tentado ajudar a distribuir os trabalhos e conseguir maior difusão do talento imenso de Nuno Beato e Zé Miguel. Contudo, é inevitável a sensação de amargura depois de tantos anos produzindo filmes de animação em Espanha e co-produzindo em Portugal. Um amargo apenas adoçado por ter conhecido as excelentes pessoas do mundo da animação. O entusiasmo da equipa da Sardinha em Lata e a sua enorme vocação são os únicos motivos para lutar nestas condições tão difíceis e tão diferentes das dos concorrentes.
A produtora Eva Yébenes, o terceiro elemento do triunvirato que fundou a Sardinha em Lata, partilha comigo a vocação ibérica e a ilusão de uma união um dia proposta por Saramago. Uma união que deve começar não nos políticos mas nos cidadãos. A colaboração entre a IB Cinema e a Sardinha em Lata creio que é uma referência para o futuro, um pequeno contributo que, espero, possa ajudar os portugueses na grande crise que vivem há muitos anos.
Numa reunião durante o Cinanima de Espinho, entre produtores de animação portugueses, recordei a todos que, antes de começar uma colaboração, deve existir uma intenção de Portugal e Espanha se conhecerem. Portugal e Espanha ignoravam-se e a ignorância é a primeira coisa a combater em ambos os países. O resto virá depois.

 

– Xosé Zapata (IB Cinema) (texto do livro “5 Anos Sardinha em Lata”)

 


 

 

Testemunho_Luis_Salvado

 

A história da animação portuguesa dos últimos 30 anos tem tanto de sonhos, glórias e felizes ilusões como de derrotas, dívidas e enormes frustrações. É feita de uma mistura de grandes talentos, sensibilidades à flor da pele, um sistema de produção frágil e dependente do estado, esperas infinitas por subsídios e promessas de apoios, filmes cujo sucesso promete mudar tudo sem nada conseguir verdadeiramente alterar, amizades e zangas duradouras, falências e ressurreições, e uma paixão desmedida e irracional por um meio de expressão artística que pede tanto e, monetariamente, devolve tão pouco. Na verdade, tudo isto poderia aplicar-se a muitas áreas da cultura portuguesa, mas no caso da animação há um elemento que se destaca: num pequeníssimo país, com poucos profissionais no sector, a quantidade de artistas sobredotados de craveira internacional é tão surpreendente como improvável.
A Sardinha em Lata nasceu há cinco anos neste cenário e, com plena consciência das condicionantes e potencialidades do sector no nosso país, tentou marcar a diferença. O que a distinguia era uma crença profunda de que a produtividade, o mercado e a qualidade de nível internacional não se excluíam, que filmes de autor podiam coexistir com séries e projectos comerciais, e que mesmo estes podiam ser feitos com um rigor estético acima da média. E, claro, que o mercado seria capaz de abarcar uma produção sustentada de qualidade, capaz de gerar trabalho duradouro para um número crescente de profissionais. Um verdadeiro estúdio de animação, portanto, no sentido internacional do termo, com uma «pipeline» de projectos pensados à distância de vários anos, e parcerias com produtoras internacionais, que desde logo se verificariam na Holanda e em Espanha. É certo que outras produtoras nacionais podem invocar ter nascido com os mesmos objectivos, só que rapidamente se focaram no lado mais comercial ou mais de autor, consoante as sensibilidades, oportunidades ou necessidades de quem a dirigia.
Daí que o arranque da Sardinha em Lata há cinco anos tenha gerado na comunidade nacional da animação um misto de desconfiança e expectativa. Desconfiança porque o sistema de financiamentos nacional não permite grandes aventuras, expectativa porque o grande trunfo do estúdio era não só o conceito mas principalmente a dupla de criadores que lhe estava na matriz: José Miguel Ribeiro e Nuno Beato, exímios no equilíbrio entre a qualidade e a vertente comercial, alicerçados no trabalho de gestão de Eva Yébenes, que completou o trio que responsáveis pelos destinos da produtora.

Entretanto, passaram-se cinco anos. E se, principalmente no último ano, a brutal crise económica que se abateu sobre Portugal se encarregou de travar as expectativas iniciais de uma produção sustentada, a verdade é que a Sardinha em Lata se tornou na mais importante produtora portuguesa de cinema de animação. Os primeiros projectos começaram a sair para a rua em 2009 e a acumular presenças em festivais, «Ema & Gui» tornou-se uma série de sucesso na RTP, e o ponto alto surgiu em 2011, com quatro presenças na selecção oficial do maior festival de animação do mundo, em Annecy, sendo um dos filmes, «Viagem a Cabo Verde», na opinião pessoal do autor desta linhas, o melhor a concurso na competição internacional. Um feito impressionante para uma produtora tão jovem.
Mais do que isso, na Sardinha, Nuno Beato e José Miguel Ribeiro fizeram o melhor trabalho das suas carreiras. O primeiro, que já estivera por trás da produtora Lampadacesa e realizara filmes como «Hissis», surpreendeu com a premiada curta «Mi Vida en Tus Manos», que recupera a técnica de pintura no vidro com uma ajudinha da informática, e com a série «Ema & Gui», o exemplo mais que perfeito de que as séries de televisão para crianças podem ter a mesma qualidade e apuro estético que os melhores filmes de autor. O segundo, depois de ver a recepção da curta «O Passeio de Domingo» ser esmagada pelo peso da expectativa gerada pelos 10 anos de espera após o seminal «A Suspeita», provou que era capaz de dominar outras técnicas que não o «stop-motion» e abriu o livro da sua vida pessoal no autobiográfico «Viagem a Cabo Verde», um dos melhores filmes da história da animação nacional. Além disso, com «Dodu – O Rapaz de Cartão», assinou uma das mais encantadoras fitas da nossa cinematografia animada, ponto de partida para uma série que esperemos venha a ver a luz do dia, a confirmar a vertente comercial internacional que a sua qualidade merece.
Mas não foi só: além dos criadores, a Sardinha em Lata desenvolveu projectos de raiz e serviu da casa a outros que há muito andavam à deriva. No último caso, distinguiu-se «Os Olhos do Farol», de Pedro Serrazina, que finalmente encontrou porto seguro após mais de uma década à deriva. No primeiro caso, ressaltam os filmes «Desassossego», de Lorenzo Degl’Innocenti, «O Sapateiro» de David Doutel e Vasco Sá e «Independência de Espírito» de Marta Monteiro.
Mas cinco anos depois das origens, o futuro da Sardinha em Lata está em aberto: José Miguel Ribeiro deixou o projecto para seguir o seu próprio caminho, o estado português atrasou e eliminou os pagamentos às artes, e, consequentemente, a animação portuguesa está ultra-debilitada quando não mesmo paralisada. A Sardinha, mesmo assim, persiste, com uma carteira de projectos aliciantes à espera de poderem ver a luz do dia, os filmes já terminados a fazerem o seu percurso internacional, e a crença de que, mais tarde ou mais cedo, o talento e a vontade acabarão por vingar. Quanto tempo levará a que tudo se volte a equilibrar é uma incógnita, mas só pelos primeiros cinco anos, a Sardinha em Lata já deixou bem vincado o seu lugar no panorama do cinema de animação nacional: pela ideologia, pela equipa e, principalmente, pelos resultados.

 

– Luís Salvado (Jornalista) (Texto do livro “5 anos Sardinha em Lata)

 


 

 

Testemunho_Teresa_Paixao

O estúdio Sardinha em Lata tem um nome muito significativo porque só em desenho animado é que se conseguem meter 100 pessoas num Mini! Sardinha em Lata simboliza durabilidade o e o desenho animado é das artes visuais que se desatualiza menos. Chamar a uma empresa Sardinha em Lata é ainda mostrar um boa auto-estima, um bocadinho de arrogância e muita criatividade. Boa autoestima porque dá vontade de rir a qualquer secretária de um potencial financiador marcar uma reunião com a “Sardinha em Lata“, arrogância porque a sardinha quando está na lata ainda engorda mais e muita criatividade porque não lembra ao diabo apelidar de Sardinha em lata alguma coisa que não seja uma lata de sardinhas!
Parabéns à Sardinha pelos milagres que fez – em Portugal é milagre fazerem-se desenhos animados – e o desejo que um dia se transforme em Cardume de Sardinha, porque quererá dizer que já nada em alto mar.

 

– Teresa Paixão (Directora de programas infantis e juvenis da RTP)(Texto do livro “5 Anos Sardinha em Lata”)

 


 

 

Testemunho_Joao_Garcao_Borges

 

Desde a sua fundação, a SARDINHA EM LATA demonstrou querer seguir um caminho independente, exigente e sólido no campo da animação de autor, um domínio onde será sempre preciso sangue na guelra e vontade de remar contra a corrente, mais ou menos, conformista de alguma animação simplesmente adaptada a uma lógica ilustrativa, quer se destine ao pequeno como ao grande ecrã.
Nunca precisei mergulhar em águas profundas para descobrir as produções da Sardinha em Lata. Embaladas por ventos favoráveis, elas atingiram a programação do Onda Curta a um ritmo natural como o das marés.
Navegar é preciso, diziam os clássicos. Hoje, seguindo o exemplo desta “associação de sardinhas” precisamos, cada vez mais, saltar para a água e nadar rumo aos sete mares que rodeiam o nosso mundo e as fronteiras de uma possível e desejada indústria da animação. Indústria que não pode ignorar a integração na globalidade da atividade cinematográfica.
Na verdade, Portugal possui algumas das equipas mais criativas no domínio da animação de qualidade. Mesmo quando investem em domínios comerciais ou, pelo menos, orientados para mais amplos segmentos do público, não restam dúvidas sobre a importância dos valores de produção subjacentes na filmografia de vários produtores e autores que muito justamente receberam e continuam a receber as maiores distinções no universo específico da animação, o Cartoon d’Or, o Crystal d’Annecy, prémios no Cinanima, no Monstra e em muitos outros Festivais Internacionais de Cinema.
Naturalmente, nada seria possível sem a conjugação de duas vertentes fundamentais para sustentar a produção de animação, o sentido da aventura e do risco e a vontade indómita de querer avançar para horizontes desconhecidos mas estudados com cuidado, porque a animação não pode ser simplesmente uma espécie de Caixa de Pandora que se abre sem critério. Na animação, a disciplina e o controlo da matéria primordial da criação constitui o vértice do sucesso e da continuidade.
Desde a sua fundação, acompanhei com entusiasmo as propostas da Sardinha em Lata e sei que no contexto descrito irei contar com as suas propostas futuras.
Parabéns…!

 

– João Garção Borges (Onda Curta RTP)(Texto do livro “5 Anos Sardinha em Lata”)

 


 

 

Testemunho_Fernando_Galrito

O Cinema de Animação, e não sou original nesta opinião, tem uma origem e afinidade muito mais próxima da poesia do que da prosa.
A essência da Animação, que originou a chamada sétima arte, tem contornos menos rígidos, mais livres e mais filosóficos – naquilo que a filosofia tem de fundamental da essência humana. É também mais metafórica e poética – no que a poesia tem de anterior à própria linguagem. Faz-se, inventando a verdade, tornando-a dessa forma “mais verdadeira” e originando por isso a sua realização, um processo mais metafísico e artístico – naquilo que a obra de Arte tem de busca e pesquisa da vanguarda, da diferença e da transgressão.
O Cinema de Animação Português junta, a esta poética, metáfora, metafísica e transgressão criativa uma especificidade que chamo de Alma Portuguesa. Não a lamechas, mas a que nasce de uma excepção cultural, antropológica, “genética” que transparece desta fusão de povos e culturas que nos criaram e que sobressai extraordinariamente, em minha opinião, nos filmes de Animação Portugueses.
Quando nasce a Sardinha Em Lata apresenta-se como um projecto diferente. Trás algumas novidades e originalidades, mas também de algo que a distingue de outros bons projectos e produtoras existentes: Uma equipa de grande qualidade com diferentes percursos, sensibilidades e experiencias artísticas. Abre-se a novos desafios e relações nacionais e internacionais – Espanha, França, Bélgica, Holanda contam-se nos seus contactos.
Nesta aventura abraça projectos que traçam percursos de diferentes origens geográficas: Desassossego de Lorenzo Degl’Innocenti é um desses exemplos, onde encontramos misturada a origem italiana do realizador com um ambiente de uma qualquer vila (que poderia ser portuguesa) carregada de simbologias e de mistérios. Mi Vida in Tus Manos de Nuno Beato é outro exercício de co-produção de uma obra que atravessa a fronteira portuguesa com a Galiza, tanto na produção como no argumento – o universo Ibérico passado entre Portugal e Espanha. O projecto de Pedro Serrazina, Os Olhos do Farol já produzido depois uma larga vivencia londrina do realizador fez chegar a publico um grande filme que durante largos anos não encontrou os meios para a sua concretização. A estes podemos ainda juntar a obra de José Miguel Ribeiro Viagem a Cabo Verde onde se misturam, de forma fascinante, as culturas europeias e africanas, urbana e rural, através de um olhar auto(viagem)biográfico.

No entanto, apesar desta diversidade de origens, culturas ou “aculturações” dos argumentos e dos autores, estas produções ultrapassam a dimensão cultural, pessoal e temática que abordam, para entrarem dentro desse “cosmos” que caracteriza e em meu entender fazem a diferença, das obras de Animação Portuguesa.
Mesmo em Ema & Gui – produzida de forma inovadora no seu design e grafismo – ou Dodu o Rapaz de Cartão – também criado a partir de alguns conceitos inovadores, como a reciclagem – apesar de serem séries, o que pressupõem uma fabricação mais industrial, rápida e estereotipada e, por isso mais propicia a derrapagens para estéticas mais universais e menos autorais, a essência dessa “Alma” mantêm-se de uma forma bem visível e, em alguns aspectos, até se aprofunda.
Mas esta essência, e isso é interessante de frisar e realçar, não destrói a sua importância, força, qualidades, interesse, vanguardismo ou diferença. Antes pelo contrario, é ela que transforma estas obras em singularidades universais que ganham adeptos em todas as latitudes. A prova está nos inúmeros prémios obtidos nacional e internacionalmente, tornando a Sardinha em Lata numa das produtoras mais reconhecidas num curto espaço de tempo.
As obras produzidas nestes primeiros cinco anos de existência desta profícua produtora, num país que ainda se conhece mal culturalmente (especialmente na sua riqueza e excelência de algumas das suas obras de animação) junta a este ingrediente as características que atrás enunciei e que fazem da sua produção um conjunto de obras artísticas de grande qualidade, que enobrecem e ajudaram a manter o cinema de animação português no tope da animação mundial.
A Sardinha Em Lata soube manter, e ampliar, através do produto do seu trabalho, empenho e criatividade de uma grande e diversa equipa, as essências que marcam a diferença do Cinema de Animação Português; a Alma Portuguesa.
Como dizia o cantor da revolução… Venham mais Cinco!

 

– Fernando Galrito (Professor, Realizador e Director artístico da MONSTRA)(Texto do livro “5 Anos Sardinha em Lata”)

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